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Camarões servidos sobre grãos numa tigela de pedra, no Iguazu Athens

Brasil em Atenas

Moqueca, o grande prato do litoral brasileiro

Um cozido do litoral mais antigo que muitas cozinhas nacionais, com coco, dendê e panela de barro. O que é moqueca e por que ela equilibra a grelha.

Peça a qualquer pessoa em Atenas que cite um prato brasileiro e você vai ouvir picanha, talvez feijoada, e depois uma pausa. Moqueca quase nunca aparece, o que é estranho, porque no Brasil é um dos dois ou três pratos sobre os quais as pessoas discutem por região, e discutir por região é o sinal mais seguro de que um prato importa.

É também o oposto exato de tudo o mais que um restaurante sul-americano costuma colocar na sua frente. Sem carvão, sem fumaça, sem faca na mesa. É um cozido, é laranja, chega numa panela, e é o melhor argumento do cardápio de que a comida brasileira é tanto uma cozinha do litoral quanto uma cozinha de grelha.

O que ela é de fato

Moqueca é um cozido de peixe ou frutos do mar com cebola, tomate, pimentões, coentro e limão. Até aí é comum a todas as versões. O que separa as versões é a gordura, e a gordura é o argumento inteiro.

A versão baiana se constrói sobre duas coisas que vieram da África Ocidental: leite de coco e dendê, o azeite alaranjado e profundo que dá a cor ao prato e um sabor que nada mais produz. É rica, levemente floral, inconfundível. A versão capixaba, do Espírito Santo, não usa nenhum dos dois, cozinha em panela de barro preta e sai mais leve, mais limpa e mais vermelha. Gente dos dois estados vai dizer que o outro faz errado.

O método tradicional também é incomum, porque não existe etapa de dourar. Nada é frito antes. Os ingredientes entram na panela mais ou menos crus, em camadas, e cozinham no líquido que soltam. É por isso que uma boa moqueca tem gosto das suas partes e não de uma frigideira.

De onde vem, o que é mais antigo do que parece

A técnica de base é indígena. Pokeka, em tupi, descrevia peixe embrulhado em folhas e assado sobre brasas, e a palavra sobreviveu no português como moqueca. Essa parte é anterior por completo à chegada dos europeus.

Depois duas outras histórias foram somadas. Os portugueses trouxeram tomate, cebola, alho e azeite para a cozinha brasileira. E os africanos ocidentais escravizados trouxeram o dendê e o coco, e a cultura de cozinha da Bahia que os tornou centrais. Uma moqueca baiana é um prato em que três continentes trabalham ao mesmo tempo e, ao contrário de muita cozinha fusão, teve quatrocentos anos para assentar.

Vale dizer com clareza que a contribuição africana não é nota de rodapé aqui. O dendê não é enfeite nem corante. Tire ele e você tem outro prato com outro nome, que é exatamente o que o pessoal do Espírito Santo fez.

A nossa, e por que ela está num cardápio de grelha

A nossa é a Moqueca de Camarão, e ela fica nos pratos principais ao lado dos cortes do forno a carvão. Esse lugar é deliberado, não acidental.

Uma cozinha que toca grelha tem um problema estrutural: quase tudo o que ela faz bem é seco, quente e direto. Os pratos saem dourados e defumados, e depois de dois deles a mesa começa a querer outra coisa. A moqueca é essa outra coisa. É úmida, aromática e gentil, e reinicia o paladar de um jeito que outro grelhado não consegue.

É também o prato deste cardápio que menos se afasta de casa. O sushi é o Brasil relendo o Japão, os tacos são empréstimo mexicano, a grelha é o idioma pan sul-americano. A moqueca é simplesmente a Bahia, cozinhada como a Bahia cozinha.

Como pedir

Peça para a mesa, não para você. No Brasil é prato de dividir e aqui se comporta assim: rende mais do que parece e é melhor comida devagar, com outras coisas em volta.

Ela também quer arroz, porque o caldo é o ponto e você vai querer algo para carregá-lo. Se você está com alguém que pediu da grelha, os dois pratos trabalham juntos em vez de competir, e entre eles cobrem quase tudo o que a cozinha realmente é.

Para beber, algo com acidez e não com tanino. Um branco chileno ou um rosé fazem mais por ela do que um tinto e, se quiser ficar inteiramente na região, pergunte no bar. Não vão te empurrar o mais caro.

Uma ressalva. Não é o prato para escolher no delivery. Um cozido que passou vinte minutos numa caixa é outro cozido, porque o peixe continua cozinhando no próprio calor o caminho inteiro até a sua porta. Este aqui coma no salão, e peça da grelha quando estiver em casa.

Perguntas frequentes

O que é moqueca?
Um cozido brasileiro do litoral, de peixe ou frutos do mar, com cebola, tomate, pimentões, coentro e limão. A versão baiana acrescenta leite de coco e dendê, que dão a cor laranja. Nada é frito antes, então tem gosto dos ingredientes e não de frigideira.
Vocês servem moqueca?
Sim, como Moqueca de Camarão, nos pratos principais do cardápio do jantar. É o único prato da lista que vem do litoral e não da grelha.
Moqueca é apimentada?
Não no sentido da pimenta forte. É aromática e rica mais do que ardida, construída sobre coco, dendê e coentro fresco. Se a pimenta importa para você em qualquer direção, avise o time de salão ao pedir.
O que é dendê?
Azeite de palma vermelho, levado ao Brasil da África Ocidental. É alaranjado profundo, de sabor marcante e central na cozinha baiana. Não é corante: tire ele e o prato vira outra coisa.
O que beber com ela?
Algo com acidez e não com tanino. Um branco chileno ou um rosé caem melhor que um tinto. Pergunte no bar se quiser ficar em rótulos sul-americanos.
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